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Tuesday, May 30, 2006

Entrevista ao Diário da Manhã (Brasil)

Domingo, 28 de Maio, o jornal DIÁRIO DA MANHÃ dedica um amplo espaço ao neuromarketing. É um trabalho da autoria da jornalista Giselle Vanesa Carvalho que aqui reproduzo dado o seu interesse:

Giselle Vanessa Carvalho
Da editoria de Economia

Telepatia hi-tech criada pela união de neuromedicina e marketing promete abrir pela primeira vez a caixa-preta do cérebro. Juntas, as disciplinas encontraram em truques tecnológicos, como a ressonância magnética e a tomografia computadorizada, o caminho para entrar na mente do consumidor e descobrir desejos dos quais nem ele próprio está consciente. Roteiro de ficção científica? Nem pensar. Isso se chama neuromarketing. Depois dele você nunca mais verá um comercial de tevê da mesma maneira.

Para a previsão tecnológica do futuro, o neuromarketing recorre a técnicas sofisticadas de imageamento capazes de identificar na tela do computador, por meio de gráficos coloridos e em terceira dimensão, o funcionamento de cada pedacinho do “chip” da cabeça do consumidor. Por meio da tomografia de ressonância magnética funcional, os cientistas produzem imagens coloridas da troca de substâncias no cérebro e registram instantâneos da localização e intensidade da atividade cerebral.

Sinais de radiofreqüência fornecem a imagem das alterações no fluxo sanguíneo e na oxigenação em determinadas áreas cerebrais. O processo também mostra como a intensidade cerebral se altera diante de anúncios publicitários. É assim, por meio da atividade elétrica cerebral, que os neurocientistas esperam explicar o que move a decisão das compras e, por tabela, o mundo da publicidade.

Eles querem saber o que o consumidor deseja antes mesmo que essa decisão passe do cérebro para a boca. Os neuromarqueteiros pretendem, com a ajuda da Medicina, mapear a forma como cada neurônio reage ao estímulo de uma campanha publicitária ou ao sabor de um alimento. O objetivo é chegar ao genoma da vendas.

“DNA” comercial que sirva, por exemplo, para que um fabricante de alimentos possa escanear o cérebro de um consumidor-cobaia de forma que isso permita conhecer sua reação cerebral no mesmo instante que a comida chegar à sua boca. A informação que o paladar manda para o cerébro. Dados que possam nortear campanhas publicitárias e estratégias de marketing que garantam retorno total do investimento.

Tecnologia - Em termos práticos, o neuromarketing engaveta os tradicionais questionários padronizados, as entrevistas individuais e as discussões dirigidas num grupo de potenciais compradores, para dar vazão a fios conectados à energia elétrica e uma memória computadorizada. As pilhas de papel dão lugar a uma máquina capaz de constatar os mecanismos que conectam estímulos e respostas e tornar visível lembranças, associações ou emoções que as pessoas testadas não conhecem ou não admitiriam abertamente.

O neuromarkenting confirma a tese do presidente do Instituto de Neurociências Cognitivas (USA), Michael Gazzaniga, de que “o cérebro sabe e age antes de nós percebermos isso”. O mapeamento do gene do consumo para entender o que desencadeia a corrente de desejos por determinados produtos já tem o aval financeiro.

O neuromarketing vem sendo estudado desde os anos de 1990, mas pela primeira vez a ferramenta começa a se materializar graças a altos investimendos de empresas como a General Motors, Ford, Daimler Chrysler, Coca-Cola, Kodak, Levi-Strauss e a Delta Airlines. A neurologia das vendas custa caro, mas essas companhias decicidiram financiar as pesquisas para usar o neuromarketing num futuro próximo como forma de assessorar as pesquisas de mercado tradicionais.

Para investimento na pesquisa de comportamento do consumidor são necessários entre US$ 250 milhões e US$ 300 milhões por ano. Na Inglaterra, o investimento é de US$ 26 por habitante. Acreditem: querem abrir seu cérebro.

Actividade cerebral desvendada
     
O neuropsicólogo do Centro de Estudos de Neuroeconomia do Instituto de Inteligência de Portugal, Nelson Lima, explica que não há um botão para o consumo porque a tomada de decisões envolve várias regiões do cérebro que atuam de forma seqüencial num curto espaço de tempo. Segundo ele, a atividade prática do neuromarketing até agora se limita a fotografia do cérebro no instante exato da tomada de decisão. O grande avanço científico foi conseguir ver na prática como as funções (emoção, memória, raciocínio) cerebrais são ativadas diante de um estímulo.

Segundo Nelson, o neuromarketing é, na verdade, uma disciplina de investigação de marketing que estuda o consumidor ao nível do sistema cérebro/mente. O objetivo seria o de obter dados e informações relevantes sobre os processos e as variáveis mentais que possam explicar melhor as expectativas, preferências, motivações e comportamentos relacionados com o consumo e ajustar melhor as estratégias de marketing das empresas. “Os indivíduos são testados e observados em laboratório diante de produtos, marcas e mensagens publicitárias que pretendam chegar ao mercado com garantias de êxito nas vendas.”

Os marqueteiros buscam atingir as camadas mais profundas da mente humana, mas ainda estão dando os primeiros passos rumo ao desconhecido. Apesar da fase inicial dos estudos, o neuromarketing já é visto como uma ferramenta certa de que implementará novos conceitos mercadológicos e inaugurará metodologia para que as empresas sobrevivam às turbulências dos mercados e adquiram vantagens competitivas. Para o publicitário Jorcelino Braga, o neuromarketing é uma espécie de evolução tecnológica da pesquisa qualitativa.

“É algo novíssimo, mas fascinante. A polêmica em torno do assunto existe, mas toda tecnologia recém-chegada tende a deixar as pessoas assustadas. Isso também aconteceu com o lançamento da qualitativa porque ela trata da reação ao estímulo”, diz Jorcelino. Para Nelson, a longo prazo, o estudo do cérebro enriquecerá o conhecimento sobre o comportamento do consumidor. “Eles deixam de contar apenas com estudos subjetivos, impressões e estatísticas e passam a dispor de pesquisas mais amplas e ricas em conteúdo informativo”.

O publicitário goiano vê no neuromarketing a possibilidade de desvendar a caixa-preta do cérebro, que é o sonho de todo o ser humano. Segundo Jorcelino, grupos de discussão do tema precisam ser reforçados no Brasil. Os debates ainda estão restritos as grandes corporações que custeiam os estudos. “O neuromarketing abre um novo mundo, fornece novos campos de pesquisa aos profissionais da área”.